ESCRAVO DOUTROS



Em ESCRAVO DOUTROS o actor/encenador/produtor Luís Castro interpretou uma série de situações baseadas em propostas artísticas de seis profissionais de dança, dois teóricos – Gil Mendo, coreólogo eMark Deputter, produtor – e quatro práticos – Amélia Bentes, Miguel Pereira, Sílvia Real e Vera Mantero, coreógrafos e bailarinos. Com colaboração plástica de Vel Z e produção da KARNART C. P. O. A. A., o projecto é subsidiado pelo Instituto das Artes do Ministério da Cultura. O espectáculo foi apresentado em sete sessões entre 20 e 29 de Janeiro.

FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA
Produção: KARNART C. P. O. A. A.
Direcção e InterpretaçãoLuís Castro
Coordenação Artística e Imagem para Divulgação: Vel Z
Produção Executiva: Gisela Barros, João Pedro Branco, Susana Correia

Propostas Artísticas
(por ordem de apresentação)
Gil Mendo
Sílvia Real
Mark Deputter
Vera Mantero
Amélia Bentes
Miguel Pereira





Canção “Mi Par D’ Udir Ancora“ usada na proposta de Gil Mendo
Ney Matogrosso, a partir de uma ária da òpera “I Pescatori Di Perle” de Bizet
Sugestão de Som usado na proposta de Gil Mendo: Vel Z

Fotografias reproduzidas na Instalação de Gil Mendo
Gregory Crewdson, Twilight (plate 19)
Gregory Crewdson, Twilight (plate 6)
Susanne Themlitz, Quiprocuo - O Reino das Fadas
Susanne Themlitz, Quiprocuo -  Vinte Anos Depois
Wolfgang Tillmans, Deranged Granny

Montagem de Som e Vídeo da proposta de Sílvia Real e Sérgio Pelágio, a partir do filme “The Tenant” /”O Inquilino” de Roman Polanski.
Apoio à Montagem de Som e Vídeo da proposta de Sílvia Real: Carlos Ramos

Texto “Gehende”/”Caminhantes” usado na proposta de Mark Deputter
Peter Handke traduzido por João Barrento

Canção “Noites do Norte” usada na proposta de Vera Mantero
Caetano Veloso sobre texto de Joaquim Nabuco

Banda Sonora usada na proposta de Amélia Bentes: variz@cronicaelectronica.org
Captação e Montagem de Video da proposta de Amélia Bentes: Paulo Abreu, João Pedro Gomes e Vel Z

Direcção Técnica e Contra-regra: Ricardo Cruz
Montagem: Marco Patrocínio, David Mesquita, Ricardo Cruz
Apoio à Criação de Luz: João Lopes Alves
Operação e montagem de Som: Sérgio Henriques
Operação de Luz: David Mesquita
Grafismo: João Leonardo e Vel Z
Fotografias de Cena: Vel Z e Maria Campos
Apoio aos Figurinos: Fernanda Ramos
Captação Vídeo: Vel Z, Sofia Afonso
Pós-produção Vídeo: Paulo Abreu, Vel Z

A produção artística de ESCRAVO DOUTROS foi estruturada em quatro fases de trabalho. Uma primeira, que decorreu entre o dia 07 de Outubro e o dia 11 de Dezembro de 2004, onde os criadores convidados desenvolveram isoladamente uma situação performativa. Uma segunda, de 12 a 30 de Dezembro, onde as criações descobertas na fase anterior foram por Luís Castro e pelo coordenador artístico Vel Z ligadas entre si para darem origem a um espectáculo uno. Na terceira fase, entre 3 e 7 de Janeiro, os criadores convidados tiveram ocasião de perceber o todo em que a sua célula estava integrada, e sobre isso tiveram ocasião de opinar e intervir. Na quarta fase, que se prolongou até ao dia 19 e culminou na estreia do dia 20 de Janeiro, tiveram lugar os ensaios corridos com técnica e imprensa.

Sílvia Real foi a primeira dos seis profissionais de dança, convidados a integrar este projecto, a começar a aventura. Era dia 18 de Outubro, eram dezassete horas. Encontrámo-nos no quartinho da biblioteca aqui do ESPAÇO KARNART e falámos sobre consumismo, sobre a fobia comum relativamente às relações com vizinhos, sobre anúncios, sobre a ideia de intervalo, sobre cinema, Polanski, Tati, Kubrick ou Bergman da parte dela, Murnau, Fritz Lang, Fassbinder, Pasolini ou Visconti da minha. Ao longo de treze sessões de trabalho passámos por temas como a escravidão do consumismo, e por papéis com marcas, pelo embrulho de objectos, pela sensação de frio, de surpresa, de inesperado, de coincidências... na penúltima sessão muito é alterado e a maioria dos objectos embrulhados são substituídos por caixotes onde a Sílvia me convida a fazer listas, a escrever nomes de escritores presentes na minha biblioteca e a anotar referências de objectos que venero, aqueles que eu transportaria forçosamente numa mudança de casa. Parecer e não ser, com rigor. Surpreender.

Gil Mendo começou a seguir. Era dia 19 de Outubro, eram quinze horas de uma das terças e quintas-feiras em que podia connosco ensaiar. Trouxe-me Wolfgang Tillmans, falou-me de Gregory Crewdson, mostrei-lhe Bessmertny e Susanne Themlitz. Decidimos que fotografias seriam o nosso ponto de partida. Interessava-nos a fronteira da transsexualidade. Escolheu de entre as centenas de objectos que constituem o espólio de performance/instalação da KARNART algumas dezenas, e com eles começámos a compor. Um objecto assumiu de imediato a sua posição de destaque por remeter para a fotografia de Crewdson que reproduz uma mulher deitada sobre água numa casa inundada, era o objecto uma boneca com um vestido branco que fora já a noiva em “Ácido Azul”, e uma fotografia especial foi ponto de partida para a criação do personagem que abre (e fecha, por apropriação de Miguel Pereira) o espectáculo - a Granny. Experiências com vestidos, combinações, meias de seda, cabeleiras, baton, casacos, lenços, a opinião da Fernanda, o Vel e o Gil à minha esquerda e à direita, a compor, a criar, a alterar, a pintar, a amarrar, a prender, a ajustar, a esconder, a mostrar, a filmar, a observar... num processo de entendimento perfeito. A carga das instalações pontuais serve a mensagem interventiva que move o colectivo KARNART e me levou a criar o conceito de perfinst, ao qual o Gil se adaptou totalmente: os objectos humanizaram-se e o performer objectizou-se.

Mark Deputter visita-nos de uma forma veloz. Com uma disponibilidade limitada, marcamos um horário diário de trabalho mais alargado. Começamos a 26 de Outubro às quinze horas e trinta minutos, e o ponto de partida foi texto. Peter Handke e “A Hora em Que Nada Sabíamos uns dos Outros” revela-se demasiado longo para o tempo de apresentação requerido a cada criador, aproximadamente dez minutos, e opta-se por Peter Handke e “Caminhantes”. O Mark seguro, a descobrir, a saber exactamente o que não quer, e eu a oferecer-lhe este adereço para a criança, aquele para a mulher, aqueloutro para o homem. A atmosfera dos personagens a caminhar de luminosa a negra, a sonoridade a crescer de intensidade e pânico; o medo, a desprotecção, a exposição de dois seres humanos frágeis à selva urbana... ou a querida Natureza, o campo, o mar e o céu que tanto nos equilibram...

Amélia Bentes começa no mesmo dia do Mark, às dezanove horas. Traz consigo um furacão de ideias, um fogo que se adapta ao meu. Pede-me corpo e emoções... tremo a pensar na minha mãe cujo desaparecimento me continua a doer em chaga. Não quer mais nada senão eu, quer encher-me de informação física, quer só corpo no espaço, quer isolar-me num tubo de luz. Propõe que nos inspiremos nos extremos de consistência da matéria de Antony Gormley, e quer projecção de imagens no meu corpo. Leva-me a passar os olhos por paisagens imaginárias de desolação cinzenta, negra, castanha e vermelha, crio o peito de lava, desdobro-me em todas as emoções que posso e entrego o corpo a uma agitação perigosa e delicada. Escolhemos das imagens filmadas pelo Vel a chucha de sangue, a autopunição com mãozinhas em aranha, o power altruísta e o power egoísta, o galo, a limpeza de alma, os objectos no corpo, o sair do casulo, o lamber do corpo, o vómito puxado, a desfragmentação, a baba em lagarto estático, a mulher em sedução...

Miguel Pereira aparece-nos no dia 29 de Novembro para desconstruir. A cada novo ensaio corresponde uma nova ideia, uma inspiração em catadupa. Passamos de manta de retalhos e patchwork ao escrever e descrever da história da minha situação concreta, ali no momento, no quadro negro; vamos de rewinds e fastforwards da minha passagem pelas transições dos momentos dos outros criadores ao longo do espectáculo, para uma correria danada a vestir e a despir roupa num camarim imaginário que ele elege como a sua zona de representação. Muda de roupa, corre nu, pendura a roupa, bem, esticadinha, assim não pode ser, sapatos direitos, o chinelo não está na posição, mais rápido, tens que ser mais rápido Luís, tens que escolher o outro cabide, agora o chapéu, adoro roupas e sobreposições de roupas,... Ri às gargalhadas com as minhas trapalhices, com o meu frenesim, com o meu lado infantil, e vem ao de cima a amizade que nos liga há mais de quinze anos. Decide fechar o espectáculo como ele abre, invertendo-o.

Vera Mantero visita-nos do dia 02 de Novembro com a sua energia mágica, e sai para se volatilizar definitivamente enviando-nos duas semanas mais tarde pel’“O Rumo do Fumo” um compact-disc onde vem indicado “Faixa 2” e uma folha de papel branco com uma letra de uma canção. Leio-a... oiço a voz do Caetano Veloso... reporto-me ao Brasil e ao Moçambique da minha infância, e espero. Esperamos. E continuamos à espera.

Algumas Opiniões do Público: 

"Elegante, atroz... What a skill." (Pedro N.) / "Bonito, uma grande viagem." (Adelaide C. Lopes) / "Rendida! É brutal na eficácia das diferentes linguagens artísticas!" (M. Teresa) / "Adorei ver Lynch ao vivo. Muito bom." (...) / "Julguei que poucas produções pudessem superar a vossa encenação de TITUS. Esta foi fenomenal. Virei a todas que puder. Numa palavra: genial! Os meus parabéns." (Ágata Sequeira) 

Algumas Opiniões da Imprensa: 

"...É nesta "fronteira física do corpo humano" (...) que Luís Castro se coloca, desta vez como intérprete que, o sendo, assume uma grande dose de criatividade e de co-autoria sobre o objecto artístico construído. E decide fazê-lo indo ao encontro de uma ideia que há muito fazia sentido: oferecendo-se como matéria prima para outros criarem (...). E quem conhece a personalidade artística ou profissional de cada um dos criadores envolvidos reconhecerá facilmente algumas autorias (...)" Cláudia Galhós, Jornal de Letras de 19 de Janeiro de 2005 

"... Desenvolvendo o conceito de perfinst (performance e instalação visual), o actor e criador constrói com invulgar inteligência, expressividade gestual e versatilidade interpretativa este apelativo cruzamento de linguagens (compare-se o registo quase estático doperformer obtido por Gil Mendo e a impressiva violência que Amélia Bentes lhe imprimiu)." Miguel-Pedro Quádrio, Diário de Notícias de 26 Janeiro de 2005.

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