OUSAR O PERFINST 

Teatro da Trindade 19.DEZ.2009 

MESA REDONDA SOBRE O CONCEITO 

Intervenção Profª 
MARIA HELENA SERÔDIO 


Muito obrigada! Agradeço muito poder estar aqui, de facto. Eu também sou sensível a algumas das dificuldades que foram apresentadas daquele lado do painel, mas se calhar ousava resolvê-las – pelo menos neste momento – de maneira um bocadinho mais pragmática. Por exemplo: o ano um passado, um grande teatrólogo, conhecido também pelas suas investigações na antropologia do teatro, etc., que é o (Richard) Schechner, dizia uma coisa muito interessante: fazia uma análise sobre as possibilidades das vanguardas, das "novas vanguardas", se a vanguarda se extinguiu, se realmente o pós-modernismo pôs em causa isso; e levantou, ou propôs, um conceito que me tranquilizou, que me pacificou – uma "nichoguarda". Ou seja, termos a noção de que da multiplicidade de tendências, de fragmentações da própria sociedade (isto é por causa da questão dos iluminados), encontrar um grupo maior ou menor, que, de algum modo, tenha uma cumplicidade e possa ter um olhar de conjunto, ou possa ter uma sensibilidade relativamente a um aspecto artístico, tem toda a legitimidade de existir. 


Mas também é verdade, e agora falando a propósito da Cláudia, que quando who’s there?, os outros, falam sobre a performance, eles estão a falar a partir das coisas que efectivamente existiram. E, portanto, estou plenamente de acordo com o que foi dito relativamente à circunstância de que para definir a perfinst, neste momento, tem que se encontrar, num trabalho definido e realizado pela KARNART, aquilo que nos parece ser o lugar exacto do seu relacionamento com as restantes artes. E é nesse sentido que muitas das coisas que eu vou dizer, são aquelas que me parecem habitar dentro do conceito; mas habitam-no porque efectivamente são concretizados, realizados nos espectáculos. 


Só faria, antes de mais nada, uma pequena referência a esta questão reportando-me ao trabalho do Luís Castro, quando fez PORTUCALIDADES ou aos espectáculos em que se parte de uma residência artística, porque isso só por si pode permitir realidades muito diversas. Por exemplo, uma delas, a do teatro Meridional quer no Alentejo, quer em Trás-os-Montes: não foi perfinst, de certeza que não é teatro-dança. E, todavia, respirava a mesma força, enfim, de memória e património, uma força quase telúrica também. E portanto, não me preocupa que haja, a partir de procedimentos iniciais parecidos, resultados artísticos que sejam diferentes. 


Vou, então, tentar explicar, naquilo que eu penso que é instalação e que é performance, digamos, a identidade ou, enfim, aquilo que eu julgo poderem ser os elementos para definir uma identidade. 


Eu penso que um dos aspectos importantes na perfinst é a circunstância de ser um projecto; e, como projecto, é percurso que se vai encontrando, que se vai desenvolvendo, que vai – como dizia o Luiz Francisco Rebello – que vai, digamos, acumulando experiências e entrosando umas nas outras. E eu acho que isso é uma das ideias importantes de um projecto artístico; que é, de facto, não fazer a experimentação sempre de outras coisas, mas tentar o novo a partir, também, de um património de aprendizagens. Esse percurso pessoal é uma opção estética e tem um nome, ou procura adequar-se ou procura dialogar com o nome. E eu penso que – e agora, também, pegando no que disse o Luiz Francisco Rebello – eu penso que o trabalho que a KARNART vem desenvolvendo é um dos projectos que me parece que tem um pensamento próprio e tem um pensamento próprio que é, sobretudo, interrogativo. E esse é um dos aspectos, se calhar, mais importantes que configura aquilo que é uma perfinst. Diferentemente da instalação, que se instala só, eu penso que, justamente, a dinâmica introduzida pela primeira parte da palavra, performance, justamente põe em movimento e em interrogação aquilo que poderia estar relativamente parado. Considero, todavia, que esta pessoalidade do projecto é também uma pessoalidade partilhada, como temos visto efectivamente, e o Luís Castro é bastante claro relativamente a essas partilhas e a essas cumplicidades. 


Eu encontro nessa pessoalidade partilhada, se calhar, dois eixos que são importantes: um que tem a ver com temáticas relativamente obsessivas que encontram eco, numa das coisas de que falou também o Luís Castro, e que são questões cívicas… Ou seja, mesmo que possamos radicar algumas destas obsessividades, naquilo que são experiências muito pessoais, percebemos sempre que elas são filtradas por um posicionamento que é sempre um posicionamento com os outros, com a sociedade, coisas que vão acontecendo ou que vão sendo interpeladas ou transformadas ou regulamentadas, etc. E depois, o outro aspecto - que me parece que tem a ver com a performance e com a instalação, com esta ideia de perfinst - é a exposição de si próprio. 


E eu penso que um dos aspectos mais importantes deste trabalho é a exposição, não com o sentido da arrogância de se mostrar, não com o sentido de impor, digamos, aquilo que é o seu gosto, a sua presença, os seus objectos. Não é também uma presença condescendente, satisfeita consigo próprio. Vejo sempre nessa exposição de si própria … de si próprio, uma questionação que é colocada também a si próprio e não só ao mundo, e que não está desafectada de ironia. E penso que esse é um aspecto importante… Sendo uma presença afectiva forte, é sempre uma posição que permite distanciamento, justamente, por esta localização tão paralela da performance e da instalação, que permite questionar-se, interrogar-se, pelo que nunca nos aparece - pelo menos a mim nunca me pareceu- uma imagem como sendo: esta é a verdadeira, esta é a resposta para o problema. E, todavia, são imagens relativamente obsessivas também para nós. 


É difícil - relativamente a determinados quadros - esquecermos a força dessa imagem... mas, curiosamente, não por ser impositiva, mas, pelo contrário, porque incomoda, porque nos faz perguntar, porque se percebe que há um sofrimento, que há um problema qualquer que está a ser colocado. Considero que nessa exposição de si próprio, a exposição é na relação com problemas, pensamentos, questões, mas também com objectos. Este é um outro aspecto que me parece importante, que é a devolução do corpo, numa relação, que não é apenas um corpo ou o meu corpo, mas é sempre uma relação de relações. E quando os objectos, que configuram um espaço pessoal, um espaço de intimidade, que por vezes também é intimidatório, há um bocado esta relação entre as coisas - há uma carga afectiva nesses objectos. Lembro-me concretamente no Escravos d’Outros, em que os pequeninos objectos tanto nos merecem um sorriso de cumplicidade, como, de repente, nos assustam: parece ali, realmente, um jardim zoológico um bocadinho mais perturbador. E eu penso que, a propósito deste trajecto, desta forma de se relacionar consigo próprio, com os objectos, com os outros, com o mundo, há a criação de um universo. Daí, a perfinst também é o corpo, a exposição do um eu, mas também a criação de um universo. E eu penso que um dos aspectos que percorre os vários espetáculos que eu vi, portanto, da KARNART, é um espaço sempre habitado. Sentimos sempre que é um espaço que não está só para ser visto pelos outros: é um espaço que é animado pelas presenças, às vezes até pelas ausências, pelas dificuldades… sentimos sempre que aquele espaço nunca é um espaço neutro. Os objectos são trabalhados com dimensões, configurações e valores muitos díspares e isso significa que há logo, digamos, dentro do próprio espaço, diálogos, independentemente da presença do corpo. A questão da assunção de legados e de património – isso também me parece importante. Moçamor foi o primeiro espectáculo que me cativou muito, e que tem a ver com memórias pessoais, memórias que são pensadas, que são mostradas. Que são memórias do corpo, mas memórias também cúmplices com realidades sociais, antropológicas e artísticas. Portanto, há sempre uma dimensão do eu com os outros. 


Os afectos são cartografados no corpo, mas também no mundo; e, portanto, algumas daquelas imagens têm a ver com um trajecto pessoal, mas têm a ver também com momentos que nós vivemos e, portanto, também nos reconhecemos - não é tão idiossincrático que nós estejamos fora dele. E eu penso que todo este processo da criação deste universo nos cria também vínculos: memórias literárias que são apropriadas - como aqui também já se falou, quer do escritor quer do historiador, quer também do dramaturgo. 


E eu penso que apropriar-se de memórias é o melhor elogio também que se pode fazer aos textos: a sua virtualidade, a sua capacidade de terem outras vozes que os digam, a criação dos objectos fetiche e a criação também do público criativo. E eu penso que também estes espectáculos, como alguma literatura, como algumas artes plásticas etc., designam o seu próprio público. E eu penso que … e nesse aspecto, como também dizia o Luiz Francisco Rebello, faz sentido que um projecto como este possa ter viabilidade e não se conformar, digamos, com aquilo que é um formato mais ou menos partilhado por todos os outros. 


Eu gostava, por último, de referir, que a recondução desta prática ao diálogo com os anos 70 – que animou a performance, embora, enfim, já desde os anos 20 os modernismos e os dadaísmos apontavam para aí – mas de facto, foi modalizando esta prática para uma zona de uma maior pessoalidade… e da assunção, porventura, mais confessional daquilo que eu chamaria uma “posição de guerra”: roubei um bocadinho ao Almada Negreiros o seu nome de guerra... 


Mas eu gostava de ligar a este projecto também esta posição de guerra, porque é também uma forma de se relacionar com os outros, que os assume como antagonistas, mas que também não deixa de dialogar e de guerrear com ela própria, com essa entourage. 


Também a Olga falou de uma coisa que a mim me interessa, que é, de facto, uma curiosa convergência do rosto de quem, enfim, se liga mais iconicamente a este projecto e que é simultaneamente um rosto de espanto e de alegria de reencontro - há de facto aqui uma mistura curiosa na própria definição do rosto. 


E queria também dizer que… penso em Escravos d’Outros - mas penso também no Comb, e penso em tudo o resto - que é um universo que junta o lúdico ao pesadelo. E isso é curioso, porque quase parece que não poderiam coabitar e, no entanto, é isso que acontece. Digamos que poderia ser um surrealismo colhido com uma derrisão de um pós-modernismo. E todavia, considero que é activo, que é figurativo, que é reivindicativo e que estimula o diálogo.

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