MENÇÃO ESPECIAL DO PRÉMIO DA CRÍTICA 2014

APCT - Associação Portuguesa de Críticos de Teatro
Centro de Estudos de Teatro
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
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Portugal


MENÇÃO ESPECIAL DO PRÉMIO DA CRÍTICA  2014

Sara Carinhas, pela sua composição performativa em A farsa
Um projecto cénico da Karnart – em co-produção com o Teatro Nacional D. Maria II – tomou por eixo criativo o universo humano do romance A farsa (1903), de Raúl Brandão. Fê-lo de uma forma original e inspirada, criando uma sobreposição de eixos performativos que, articulando razões e expondo a dor e raiva dos mais humildes, encaminhava o espectador para a liturgia de uma secreta – mas viva – indignação.
Luís Castro e Vel Z voltavam, assim, à teatralização do universo deste autor – que é, inegavelmente, um dos seus referentes estéticos privilegiados – depois de Húmus, apresentado em 2010, em que a estética da perfinst se afeiçoava à evocação de três textos de Raul Brandão:  Húmus (1917), História dum palhaço (A vida e o diário de K. Maurício) (1896) e A morte do palhaço (1926). Farão, em 2012, e ainda nesse formato estético, o espectáculo Ilhas, a partir de uma outra incursão à obra desse  autor: Ilhas desconhecidas (1924). 
Tal como nesses outros espectáculos, também na representação d' A farsa, na Sala Experimental do Teatro Nacional D. Maria II, o texto era lido – em voz off – por Luís Castro, num registo relativamente neutro, recusando, de facto, arrebatamento ou displicência. Deixava, então, ao trabalho expressivo da actriz Sara Carinhas, no seu rosto e no corpo inteiro, a visualização desse mundo interior – de um espanto aos gritos – como é próprio dos deserdados.  Pautada por um anarquismo indisfarçado, a escrita de Raúl Brandão não deixa de evocar, efectivamente,  a "alma eslava e religiosa" que encontramos nos grandes escritores russos do séc. XIX" como defendeu João Pedro de Andrade.
Nesse desafio à capacidade de expressão da dor, da indignação e da revolta, Sara Carinhas desenvolveu um magistral trabalho de composição performativa. Erguendo-se lentamente de uma cama onde aparecia enredada em tules negros – como larva que surge da morte mais do que da vida –, a actriz desenvolvia ao longo do espectáculo um trabalho meticuloso, feito de contenção e rigor, mas abrindo – em breves momentos – à  explosão do grito e da raiva, dando assim conta da revolta imensa contra a desumana exploração dos mais fracos. 
É  breve o momento em que articula, por palavras suas, a raiva incontida de Candidinha e, ao longo do espectáculo, é sobretudo no trabalho expressivo do rosto e do corpo inteiro (em estatuária de traços barrocos) que irrompe essa veemência da indignação: sofregamente atenta ao pormenor, cuidando da pausa intranquila ou da movimentação embargada em sobressalto. 
Numa segunda parte do espectáculo, a actriz surgia transfigurada, entrando em cena por  uma porta lateral da sala: com uma bela saia branca, comprida e rendada, um corpete de alças de generoso decote, um gracioso toucado de renda no cabelo, os olhos "vazados" – mercê de uma espécie de lente opaca – e uma assombrosa caracterização facial (por Karina Sterczl), em tudo evocando a dimensão romântica de uma boneca de luxo. Ultrapassava, certamente, a breve anotação do romance brandoniano que se referia à mulher de Antoninho como a figura dramática da Cega. Mas será, certamente, nessa cegueira do mundo real – acedendo ao lugar de um sonho, ainda que impossível de se cumprir – que a actriz mobilizava os muitos objectos minúsculos que compunham as instalações que estavam expostas em várias prateleiras de uma estante, de que se podiam aproximar os espectadores, então livres de circularem pela sala. Essas instalações apontariam, muito provavelmente, para o acesso ao sonho da beleza em miniatura, ao triunfo de uma representação que se conforma ao desejo, mas que o mundo social ali antes evocado não poderia consentir aos mais frágeis, àqueles que parecem empurrados para a "farsa  da submissão" que o mundo real lhes impõe. 
Nessa sua presença, de significação espessa e plural, a actriz Sara Carinhas compunha, a solo, com irrepreensível rigor e contida expressividade, um verdadeiro ritual de dor e raiva inerente aos deserdados. Que não podia deixar de nos perturbar pela dupla inscrição num projecto artístico que não exclui a representação da dor, antes nos remete para uma tragicidade imposta aos deserdados da terra. Daí esta simbólica, mas justa, atribuição de uma Menção Especial da Crítica relativa ao ano de 2014.


Pelo júri da APCT 2014



Maria Helena Serôdio

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