EUNICE TUDELA DE AZEVEDO

Eunice Tudela de Azevedo |“Um espaço de transdisciplinaridade : Projecto Teatral, Karnart, Visões Úteis e Circolando”, in Rui Pina Coelho (coord.), Teatro Português Contemporâneo : Experimentalismo, Política e Utopia [Título Provisório], Bicho do Mato/TNDMII, Lisboa, pp. 134-153, 2017.

Karnart | A contaminação do teatro pelas artes plásticas é uma característica que podemos igualmente identificar no trabalho da Karnart, que, apesar de ter sido oficialmente fundada em 2001, por Luís Castro, Vel Z, Maria Campos, Fernanda Ramos e Filipa Reis, encontra no percurso artístico do seu mentor – Luís Castro – uma pré-história significativa na concepção e exploração do conceito que pauta as criações da estrutura: perfinst (performance+instalação). Este conceito, que tem sido aprofundado e aperfeiçoado ao longo dos anos, espelha a necessidade de encontrar uma categoria própria para as criações da companhia, que desenvolveu uma metodologia de trabalho adequada, uma técnica para o intérprete ideal (o perfinster, que deverá combinar a capacidade expressiva de um actor, a destreza e o distanciamento de um manipulador de marionetas, o controlo corporal do bailarino e a curiosidade e o rigor do cientista) e uma linguagem híbrida – produto da convergência da instalação, projecção de vídeo e performance.

Apesar de criarem espectáculos para salas à italiana, recusam aceitar a sua disposição tradicional e acabam por criar uma abordagem própria a estes espaços convencionais. No caso de Pecado (1998), onde o espaço cénico assume a disposição de arena – espaço de confronto e digladiação entre João Agonia e a sua família intolerante à sua sexualidade –, circundado por estrados mais elevados, simbólicos de uma dimensão superior, quase divina, livre de preconceitos. O espaço assume, aqui, uma dimensão dramatúrgica produtora de sentido. No entanto, a perfinst é pensada, principalmente, num contexto de site specificity, recorrendo frequentemente a espaços não convencionais, como galerias de arte, casas, ou o Espaço Karnart, instalado, entre 2002 e 2009, num edifício do século XIX, onde funcionou a Escola de Medicina Veterinária de Lisboa, e que apresentava características próprias incorporadas nos espectáculos, como mesas de mármore para a dissecação de animais utilizadas para acolher instalações. 

Os espectáculos de perfinst são, na sua grande maioria, concebidos propositadamente para o espaço em que são apresentados, habitando-o e transformando-o, aproveitando núcleos e recantos, como é evidente nas criações para a Galeria Monumental, do qual Húmus (2010) é o exemplo mais significativo: 

Usando de forma criativa os vários espaços da Galeria Monumental (…), Luís Castro concebeu (…) um percurso de acções que os actores/performers (…) iam executando de forma rigorosa e ordenada, mas paredes meias com a evocação do onírico, esconjurando, assim, fantasia e dor, desejo e medo, vida e morte. (…) O espectáculo estava escandido em várias partes e cada cena decorria em lugares diferentes da Galeria: Sala 1, Sala 2, Sala do fundo, Galeria, Pátio, Sala Preta. O que isso sinalizava era não apenas a possibilidade de criar diferentes atmosferas nos enquadramentos que a arquitectura permitia e a iluminação modalizava, mas também a deambulação que se oferecia ao público, que podia, a partir da 4.ª cena, ir escolhendo a acção a que quereria assistir, podendo a qualquer altura passar de um lugar para outro. (…) Algumas das opções de enquadramento revelavam uma inteligente apropriação do lugar, de forma simples e sem imposição de sentidos, mas, ao mesmo tempo, criando o espaço para possíveis leituras, imaginação à solta a completar esse “espanto aos gritos” que é o lugar da fala e a raiz do sentimento de Raul Brandão. (Serôdio, 2011: 18-20)

Em Húmus descobrimos a liberdade de circulação oferecida ao público; liberdade que se traduz na responsabilidade da escolha do fio condutor do espectáculo, bem como no estímulo ao espectador, que é convidado a visitar estes lugares, a experienciar emocionalmente as instalações, a pensar nas questões levantadas e a descodificar as várias leituras possíveis. Em suma, o espectador é convidado a lutar pelo seu espectáculo.

As várias leituras de uma perfinst são construídas a partir da relação dos objectos – uma instalação ou sequência delas – com o texto (em voz-off), que nunca é ilustrativa. Este antagonismo confere ao espectáculo uma maior densidade dramatúrgica, tornando-o mais improvável, enigmático e decifrável. Também a figura do perfinster compõe essa densidade, já que leva a cabo, através de um movimento cuidado e rigoroso, a manipulação dos objectos e a transformação das instalações ao adicionar, subtrair ou modificar os elementos que as compõem. Encontramos em Yerma (2005), a primeira parte de uma trilogia dedicada ao tema da família, um momento fulcral no desenvolvimento da perfinst, tendo sido o primeiro espectáculo a apresentar uma forte relação paradigmática entre objecto e intérprete. 

Os objectos assumem uma importância capital e existem, no acervo da companhia, em grande número e distribuídos por várias categorias: artesanato, têxteis, objectos geológicos, bonecos, objectos religiosos, flores, animais embalsamados, etc… Estes constituem uma colecção que espelha a riqueza e variedade do mundo e encontram-se catalogados e metodicamente organizados na “objectoteca” do Gabinete de Curiosidades Karnart. O impressionante espólio é uma das bases da criação, uma vez que alguns espectáculos são construídos a partir de uma pré-selecção feita por Luís Castro, posteriormente disponibilizada aos intérpretes para que contribuam para um determinado tema ou texto, como aconteceu, por exemplo, no processo de construção de Ilhas (2012). Os objectos carregam uma história antes da sua integração no acervo e é conhecido o motivo pelo qual foram integrados, bem como o historial da sua participação no trabalho do colectivo. Quando se tratam de elementos naturais, nunca são retirados violentamente ao ambiente, já que a ecologia é uma das preocupações desta companhia. 

Encontra-se, portanto, na base do trabalho da Karnart, uma ética e uma necessidade de intervenção na comunidade, reveladoras de preocupações de ordem ecológica, social e política que definem o trabalho dramatúrgico, bem como a componente plástica dos espectáculos. Em Salvesave (2000) – que abordava a catástrofe natural sofrida em Moçambique, em 2000, e pretendia alertar para o fenómeno devastador das alterações climáticas – está já presente a questão ecológica. Também em O Convento (2011), que parte das características de um determinado território (ambientais, culturais, sociológicas e antropológicas) – o da Serra de Monchique –, se aborda esta problemática ao encontrar, na sabedoria de uma família que vive de forma modesta num convento abandonado no Algarve, uma alternativa de vida mais sustentável. Neste espectáculo descortina-se um outro tema e metodologia recorrentes nos espectáculos da Karnart, presente também em Portucalidades (2001), que assenta num trabalho de campo e de convívio com a comunidade. Este projecto, espectáculo em várias partes apresentadas em diferentes zonas do país, ergueu-se a partir das particularidades de cada região trabalhada, tendo como preocupação alertar para as suas especificidades culturais e a eventual descaracterização e extinção dos seus valores artesanais e tradicionais. 

Outro importante traço do trabalho da companhia surge nos espectáculos em que se abordam questões de marginalidade social e dos direitos das minorias, como em Hermaphrodita (2015), uma exploração de um corpo híbrido e da sua sexualidade, com recurso à projecção de vídeo num corpo transformado em tela. São postas em evidência uma dimensão política e uma postura que obrigam o espectador a confrontar-se com a alteridade: a conhecer, a pensar e a respeitar o outro. 

(…)



1 O espectáculo Comb, de 1996, apresentado nas Smith's Galleries e no I.C.A, em Londres, é apenas um exemplo de uma criação de Luís Castro onde é possível identificar já o embrião da Karnart.

2 Novo espaço ocupado pela Karnart, em Lisboa, desde 2015.

3 Convento franciscano de Nossa Senhora do Desterro, situado na Serra de Foia, em Monchique. Património de interesse público actualmente em ruínas.

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