CLAUDIA GALHÓS

“A KARNART ENTRE O CÉU E A TERRA: ESBOÇO DE UMA SINGULARIDADE”
NOTA DE INTRODUÇÃO AO EVENTO OUSAR O PERFINST: TEATRO DA TRINDADE, LISBOA, PORTUGAL, NOVEMBRO 2009

Luís Castro criou um conceito próprio que caracteriza o que faz: chamou-lhe «perfinst», mas a evidência da reunião dos dois géneros – performance e instalação – em uma linguagem própria, de autor, é apenas parte, embora fundamental, do que define o seu trabalho. A par destas, utiliza as estratégias e as técnicas do teatro, da dança, da body-art, da literatura... O que seja necessário para construir um imaginário que, na sua essência, inscreve na contemporaneidade e num mundo globalizado a pesquisa da identidade – do indivíduo e da comunidade, neste caso Portugal.

Isto significa que nas suas peças – de maior cariz performativo ou instalativo ou teatral – há uma atitude implicada no real e um interpelar permanente da sociedade, da cultura, da política, da sexualidade, da ecologia ou da religião. E cada uma destas criações não são actos isolados, são acumulativos. Constituem-se enquanto capítulos de uma história que está a ser desenvolvida ao longo do tempo e ao longo do território humano. Enquanto tal, devem ser vistos como o correspondente cénico, efémero, como fragmentos ao vivo, de todo o trabalho de pesquisa, levantamento e recolha de materiais do artesanato português. Devem ser vistos como vestígios de um tempo passado, tempo do passado do mundo ou do passado do indivíduo – a sua infância.

Com estes objectos e com estas acções, Luís Castro tem vindo a construir um espólio que é já assinalável. Tendo em conta a sua singularidade, muito sentido fazia a sua existência no enquadramento do espaço que habitava: a antiga secção de anatomia da Faculdade de Medicina Veterinária. Não tanto porque Luís Castro é licenciado em Medicina Veterinária, mas porque a questão dos direitos dos animais e os seus correlativos, a natureza e a ecologia, são questões centrais do trabalho da KARNART.

Mas com 2009 inaugura-se um novo capítulo, o que se constitui como oportunidade de levar mais longe a articulação entre os espaços de trabalho-museológicos-apresentação e a essência criativa da KARNART. Desde cedo que a portucalidade faz parte deste programa de pesquisa da identidade, tornado claro na peça que tomava este título «Portucalidades» e que partia de uma investigação cultural, estabelecendo relações entre Lisboa, com toda a sua carga de urbanidade, e a província. É essa uma das duplicidades que marcam fortemente a atmosfera das suas peças (o urbano e o rural), a par da já referida pesquisa – quase arqueológica, antropológica, social, cultural.

No centro de todas as problemáticas que desenvolve, e a par da questão da identidade mais uma vez, situa-se a atmosfera celebratória que estabelece múltiplas tensões à coexistência entre o profano e o religioso. No fundo, subsiste uma fé, mas é a fé no homem, implicado com o mundo que habita e intensamente envolvido com ele. É essa fé que, na diferença de cada um, Luís Castro reabilita nas peças que constrói. Pensá-las no enquadramento de uma capela é imaginá-las no seu lugar ideal: o espaço próprio do ampliar da experiência deste viver problematizador e tão deliciosa e terrivelmente humano.


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