MARIA JOÃO BRILHANTE

EM “LAÇOS E DESENLACES”
ABRACE, BELO HORIZONTE, BRASIL, SETEMBRO DE 2008

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Dois dos casos mais interessantes e a merecerem uma reflexão crítica sistematizada que não poderei fazer aqui são os percursos dos Artistas Unidos e da KARNART. Este último, construído em torno de um artista chamado Luís Castro e do conceito que desenvolveu de perfinst (performance+instalação) tem vindo a conquistar um lugar sólido no campo teatral português, apesar de algumas dificuldades relacionadas com a obtenção de um espaço fixo para desenvolver a sua actividade.

O que torna o trabalho da KARNART digno de nota é a consistência do seu programa e a persistência com que desenvolve uma reflexão em acto do quadro conceptual em que labora. Luís Castro cria instalações inspiradas em universos marginais, habitados por violência latente e repressão nas quais integra acções performativas onde performers manipulam/animam espaços e objectos da instalação.

Na verdade, da mesma forma que acompanhamos o percurso de um artista plástico e vamos descobrindo o trabalho de repetição e transformação de motivos, temas, técnicas, procedimentos e opções estéticas, também no caso das criações da KARNART reencontramos transformados e recontextualizados, objectos, temas, e figurações que povoam o imaginário de Luís Castro. A aparente liberdade que assiste ao observador de uma obra plástica é aqui interrogada porque a perfinst conta com a sua participação preparada.

Aliás, um dos aspectos curiosos destas criações consiste no encontro entre o espectador e a dimensão textual que a perfinst também integra (textos de Santareno, Lorca, Camus, Kafka, Copi foram alguns dos pontos de partida da criação). Desde logo o título da performance revela a operação de transposição e condensação da qual resulta: por exemplo, os textos o Equívoco de Camus e Yerma de Lorca estão em Equerma, uma performance apresentada no Teatro Nacional D. Maria II em 2006, na qual um espaço central do palco apresenta cenas do texto de Camus, enquanto em torno desse espaço estão expositores onde performers manipulam objectos de uma instalação ao som (por vezes gravado) de excertos do texto de Lorca. A montagem das acções realizada por Luís Castro condiciona a percepção do espectador que é convidado a, no final, observar a instalação como obra de arte.

Numa das mais recentes produções chamada Visões sobre Cemitério de pianos, a partir do romance Cemitério de pianos de José Luís Peixoto, o texto era objecto de um trabalho mais intenso de construção por parte do espectador ao longo do seu percurso pelas várias salas da Escola de Medicina Veterinária ocupadas pela perfinst. Uma gravação de um excerto do texto introduzia-nos no espaço-tempo da instalação e da performance que a animava, mas apenas como leit-motiv e antes de nos serem apresentadas por uma performer-guia as regras de funcionamento da instalação e o papel previsto para o espectador. Um gabinete de curiosidades constituía a primeira sala onde o universo criado no romance era concretizado através de objectos em miniatura vindos de um passado já só existente em lojas de ferro velho e antiquários, assiduamente visitados, aliás, por Luís Castro. A partir daí começava uma viagem que podia ser aleatória não havendo qualquer tipo de continuidade entre os temas das salas e não tendo os espectadores o mesmo conhecimento do romance. Todavia, através de estímulos sonoros e da própria movimentação/deslocação dos performers (quando existente), o espectador era atraído para onde existia acção, jogando-se com a variabilidade de cada noite de perfinst e com o seu carácter único e irrepetível.

O projecto artístico de Luís Castro e da KARNART é singular e exemplar quanto a mim desse processo de reflexão e teorização implícitas na criação. Que ele se tenha tornado num desafio à reflexão e interpretação por parte da comunidade de artistas e espectadores é revelador do interesse deste work in progress e do conceito de arte que lhe está subjacente.


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